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Chuva de verão

Criado em 01.07
Não foi uma chuva comum, mas sim uma salvação.
O meio-dia havia atingido o auge de sua crueldade, o sol derretia como um pedaço de cobre aquecido sobre nossas cabeças, e o ar estava denso como óleo quente estagnado. Até os grilos do meio-dia pararam de chiar, escondidos nas sombras das pedras. Nesse silêncio pesado, surgiram os primeiros sinais: uma brisa seca e quente girou de repente como um animal assustado, trazendo o cheiro de poeira molhada antes mesmo que uma gota a molhasse. Então, uma nuvem escura se ergueu por trás das colinas, como se a terra estivesse virando uma página branca escaldante para outra cinza úmida.
E a chuva explodiu.
Não caiu, mas desabou de uma vez, como se o fundo do céu tivesse se rompido. Suas gotas eram grandes, pesadas, como contas de vidro frio batendo na superfície da terra queimada, produzindo um assobio vaporoso. O som da chuva nos telhados de lata era como grandes tambores derrotando o silêncio do mundo. A cortina d'água obscureceu tudo, transformando o distante em um desenho a lápis em papel molhado.
E enquanto eu estava parado atrás da janela, vi-o a redesenhar a cidade. Lavou o rosto cansado das superfícies, cobriu as ruas com uma camada brilhante que refletia as luzes das janelas. Transformou o passeio cinzento num espelho negro que refletia as luzes dos carros que passavam como meteoros molhados. E vi as crianças a correr nas poças rasas, os sons das suas risadas a perfurar o estrondo da chuva como cristal.
E não durou muito. Assim como começou de repente, os tambores gradualmente pararam. O estrondo diminuiu para um sussurro, depois para um gotejar espaçado das calhas. O sol revelou-se de repente, mas já não era aquele sol impiedoso, mas sim quente, dourado, a brilhar em cada gota suspensa nas folhas das árvores. E começou a tecer um arco colorido sobre as casas, uma promessa colorida de paz.
Respirei. O ar já não era abrasador, mas sim refrescante, carregando o aroma da terra limpa e das folhas lavadas. Até o som do regresso dos pássaros era diferente: límpido, molhado de alegria. E soube que a chuva de verão não é apenas água que cai do céu; é um momento em que o universo apaga a página dura do calor e escreve nela uma única linha refrescante de vida antes que o sol regresse.